Dinheiro não trás aprendizagem

Um dos segredos para utilizar o potencial mental humano é a rotina. As pessoas podem não gostar de rotina, dado que entendem rotina como repetição, e isso é o pior problema.
Uma rotina é um plano básico para execução de uma ou mais tarefas. Um programa de computador que executa múltiplas tarefas em múltiplas situações frequentemente usa as mesmas rotinas repetidas vezes em todas essas múltiplas situações.
O cérebro humano é, dentre outras coisas, um motor de reconhecimento de padrões e padronização de caos. Nosso cérebro provoca sensação de prazer ou bloqueia o desconforto baseado, entre outras coisas, no reconhecimento de padrões familiares. Música, imagens, vozes, cheiros, gostos. A base das nossas preferências é o reconhecimento de padrões familiares, que se constroem baseados em rotinas.
Existe o prazer no novo, na descoberta, na adrenalina, mas mesmo esse é baseado no reconhecimento de padrões e na segurança da rotina conhecida que é empregada para enfrentar novos desafios.
Esquecendo particularidades e dilemas morais, certos regimes políticos, certas formas de educação familiar, certas formas de ensino, métodos institucionais, estão associados a rotinas e padrões que favorecem a memorização e a cognição por aderirem a padrões e rotinas.
Quando eu estudava, passei por diferentes escolas, diferentes professores e diferentes metodologias. Consegui perceber uma grande diferença entre a capacidade que tinha de aprender baseado no tipo de instituição de ensino, tipo de professores e tipo de ambiente. Ao contrário do que é senso comum, eu estudei em escolas públicas e escolas particulares, em épocas diferentes, sob políticas de ensino diferentes. A forma como isso influiu no meu aprendizado era clara.
Em umas escolas, a turma era chamada por sinal sonoro, e cabia aos alunos encontrarem seus lugares. Em umas escolas os professores eram estritos em sua aderência a um plano geral de estudo que procurava não antagonizar o conforto dos estudantes. Em umas escolas, os professores eram compelidos por um plano de estudo que visava o aluno mais do que a matéria. Digo em umas escolas, mas no sentido de que foram 4 instituições diferentes que estudei, sendo que em diferentes épocas mesmo as mesmas instituições tinham métodos diferentes.
Mas o contraste vem da comparação. Em uma época éramos os alunos direcionados a celebrar o hino nacional duas vezes por semana. Em uma época éramos os alunos direcionados a perfilar com antecedência onde os professores da primeira aula iriam direcionar os alunos à suas salas, todos os dias. Em uma época éramos os alunos direcionados a fazer uma introdução às aulas com respeito à escola e aos professores.
Os professores em uma época e instituição eram donos da sala de aula como se ali fosse seu domínio. Em uma época, os professores eram responsáveis pela ordem e pelo conteúdo de suas aulas. Em uma época, não é a política presente ou as metas que ditavam o tipo de ensino que os alunos recebiam. Em uma época, a educação não objeto de plano de político, e sim de uma política de governo direcionada ao país e ao povo como um todo.
Eu tenho claro em minha mente qual foi a época em que o aproveitamento do ensino foi o melhor possível, e eu estava entre os alunos com melhor desempenho. Isso não significa que ao todo, meu desempenho sempre foi ótimo no que diz respeito à adquirir conhecimento, mas sim que ele sempre foi o melhor que poderia ser na instituição e época em que estive.
A questão é que entre ter aulas de física com um professor que é formado em física e ensino gera melhor resultado do que ter aula de física com um professor que é químico formado e trabalhava em um laboratório em um hospital e foi direcionado a ser professor de física porque a política ditava que deveria haver X professores para cada Y alunos.
Eficiência e eficácia do ensino raramente está diretamente ligada ao investimento que se faz por correlação direta. Muitas vezes o recurso material e financeiro é usado como compensação para a falta de capacidade técnica e intelectual de promover o ensino. Isso aliado à ideia de que ensino e coesão social competem, é um sério problema da educação moderna.
Aprender requer que aquele que aprende esteja na posição de aprender. Não existe noção em que o aprendizado será eficiente e eficaz, quando partindo do princípio de que quem não sabe pode determinar o processo de aprendizagem. É uma noção que foge até mesmo ao natural da biologia. O pássaro não aprende a voar esperando no ninho até que tenha entendido como voar porque é sua natureza. A ciência tem descoberto muitos processos do mundo animal que acreditava-se ser instinto, mas revela-se aprendizado, puxado por ações dos adultos. É notório que animais de grupo, e aqueles que cuidam dos filhotes depois de nascidos, possuem muito mais amplo leque de habilidades do que os que são deixados para criar-se pela natureza.
Isso posto, existe ainda a questão da rotina. Mesmo a rotina não relacionada com a aprendizagem, mas o simples ritual que precede ou segue do momento de aprendizado tem o poder de criar na mente uma âncora firme daquilo que é estudado. Instituições religiosas, militares, e mesmo profissionais, como as antigas Guildas, os modernos Conselhos, todos aderem, ou deveriam aderir, a rotinas rituais que celebram momentos de aprendizagem e reconhecimento, e isso como processo favorece ao cérebro reter aquilo que é aprendido.
Hoje enfrentamos uma crise mundial de educação, e em grande parte ela pode ser traçada para um tipo de consideração da educação que em nada se relaciona a estudos direcionados à educação, mas estudos políticos que se concentram em como o estudante vê a sociedade e o Estado que quer ensinar, e não ao conhecimento que deve-se adquirir.
Alarmante é o fato de que em vários países do mundo, ao invés da capacidade de leitura, escrita e compreensão ter aumentado em volume, ou adiantado em idade, pelo contrário, regrediu em volume e também atrasou-se em idade. A tecnologia que pode, comprovadamente, ser usada para aumentar a capacidade e a fluidez do ensino, ao invés, é utilizada como muleta para colocar o ensino em segundo plano. Se uma IA é capaz de ler, escrever e entender, e poderia ser usada como ferramenta para discussões e aprendizado, ela é ao invés utilizada para suplantar a incapacidade de leitura, escrita e discussão.
As escolas que implementaram tecnologia em grande parte tiveram muitos problemas para adaptar o ensino a essa realidade exatamente porque professores pensam na tecnologia como facilitadora de seu trabalho, transferindo aos alunos a impressão de qua tecnologia está para diminuir a necessidade de aprendizagem à tópicos especificamente relevantes e humanos.
Mas a verdade é que, ao contrário, a tecnologia deve ser usada para desafiar a noção de responsabilidade de aprendizado, e favorecer um aumento na cobrança do que é ensinado, e de como é ensinado.
E as rotinas, a base de formação do cérebro humano, vistas como delegação clara para a tecnologia, desarmam o cérebro humano de sua principal estrutura de retenção cognitiva.
E há milhares de anos, os seres humanos que conservam suas rotinas de pré e pós estudo, principalmente aquelas que envolvem movimentos físicos e vocalizações, seguem sendo as que atingem alta eficiência e eficácia em aprendizagem, mesmo empregando a tecnologia, quando sabem que a tecnologia está para levantar as exigências intelectuais, não diminuir.