A macroeconomia contemporânea, especialmente quando aplicada ao contexto de economias emergentes e latino-americanas, enfrenta um dilema epistemológico e prático de profundas consequências: a crescente dissociação entre os indicadores agregados de atividade econômica — primariamente o Produto Interno Bruto (PIB) — e a melhoria efetiva das condições de vida, da infraestrutura social e da robustez institucional.
Historicamente, a teoria do desenvolvimento econômico operou sob a premissa de que a expansão da produção material seria o vetor causal suficiente para a modernização das estruturas sociais e para a resolução dos passivos de desigualdade. Contudo, evidências empíricas acumuladas nas últimas décadas, corroboradas por uma vasta literatura que vai do estruturalismo da CEPAL às novas teorias de crescimento endógeno e crítica institucional, sugerem que o crescimento do PIB pode ocultar, e por vezes acelerar, processos corrosivos de degradação estrutural.1
O fenômeno, muitas vezes classificado como "crescimento empobrecedor" (na tradição de Bhagwati) ou "crescimento sem desenvolvimento", não é uma anomalia passageira, mas o resultado de arranjos institucionais e produtivos específicos que privilegiam a extração de renda de curto prazo em detrimento da acumulação de capital físico e humano de longo prazo.3
A análise a seguir estrutura-se em oito eixos fundamentais, derivados de uma investigação exaustiva das dinâmicas que afetam economias como a brasileira. Estes eixos exploram desde a macroeconomia dos enclaves de commodities e a inflação de custos no setor público (Doença de Baumol) até as complexas interações entre financeirização corporativa, desindustrialização prematura e a insustentabilidade dos modelos de crescimento liderados por dívida (debt-led growth). Ao longo do documento, demonstra-se que a "qualidade" do crescimento é tão ou mais determinante para o futuro de uma nação do que a sua "velocidade". O crescimento que não diversifica a matriz produtiva, não incorpora progresso técnico e não fortalece a capacidade fiscal do Estado é um crescimento estéril, que consome as bases de sua própria sustentabilidade futura.5
O Enclave Econômico: Crescimento Setorial Isolado e a Volatilidade Fiscal
A primeira e mais visível manifestação do crescimento desconectado do bem-estar interno ocorre quando a expansão do PIB é impulsionada por setores isolados, funcionalmente segregados do restante da economia doméstica. Este fenômeno, frequentemente observado em economias ricas em recursos naturais, cria "ilhas de prosperidade" estatística cercadas por oceanos de estagnação produtiva.
A Mecânica da Heterogeneidade Estrutural e os Enclaves
O conceito de heterogeneidade estrutural, central no pensamento da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), descreve economias onde coexistem setores de altíssima produtividade (geralmente voltados para a exportação de commodities minerais ou agrícolas) e vastos setores de subsistência ou serviços de baixa qualificação, com produtividade ínfima.7 Em um cenário de boom de preços internacionais, o setor exportador moderno expande suas receitas dramaticamente, elevando a média do PIB nacional.
No entanto, devido ao baixo nível de encadeamento produtivo (linkages) com a indústria doméstica, esse crescimento não transborda para o restante da economia. A maquinaria é importada, a tecnologia é exógena e a mão de obra empregada é reduzida em quantidade, ainda que alta em qualificação específica. O resultado é uma injeção de renda que é contabilizada no PIB, mas que não amplia a capacidade produtiva interna nem gera demanda massiva por insumos locais. O crescimento torna-se um fenômeno de preços e volumes de exportação, não de transformação estrutural.9
A Vulnerabilidade Fiscal e a Volatilidade dos Termos de Troca
A dependência de setores isolados de commodities expõe o Estado a uma volatilidade fiscal extrema, incompatível com a provisão estável de serviços públicos. A literatura econômica demonstra que a volatilidade dos preços das commodities aumentou drasticamente nas últimas décadas — estimativas apontam um crescimento de 175% na volatilidade entre as décadas de 1990 e 2000.10 Países dependentes enfrentam choques de termos de troca com uma frequência até seis vezes maior do que economias diversificadas.11
Essa instabilidade cria um ciclo perverso para as finanças públicas:
Fase de Bonança: Durante a alta dos preços, a arrecadação dispara. Governos, pressionados por demandas sociais, expandem despesas permanentes ou iniciam obras públicas vultosas.
Fase de Bust: Quando os preços internacionais revertem à média ou colapsam, a receita fiscal desaparece abruptamente. Contudo, as despesas (salários, previdência, manutenção) são rígidas.
Ajuste Destrutivo: Para cobrir o déficit, o Estado corta investimentos essenciais e aumenta a carga tributária sobre os demais setores, deprimindo a atividade econômica justamente quando ela mais precisaria de estímulo.12
Este padrão impede o planejamento de longo prazo em saúde, educação e infraestrutura, setores que exigem fluxos de financiamento previsíveis e constantes. O PIB pode ter crescido na média do ciclo, mas a qualidade dos serviços públicos deteriora-se devido à instabilidade do financiamento.14
A Doença Holandesa como Vetor de Isolamento
O crescimento via enclaves exportadores frequentemente desencadeia a "Doença Holandesa" (Dutch Disease). O influxo massivo de divisas estrangeiras aprecia a taxa de câmbio real do país. Embora isso possa controlar a inflação no curto prazo (barateando importados), o efeito estrutural é devastador: torna a indústria manufatureira doméstica não competitiva, tanto no mercado externo quanto no interno.15
Bresser-Pereira e outros teóricos do Novo Desenvolvimentismo argumentam que essa apreciação crônica leva a uma especialização regressiva.17 O país "desaprende" a produzir bens complexos. O PIB cresce puxado pela renda da terra (recursos naturais), mas o tecido industrial, que é o motor da inovação e do emprego de qualidade, atrofia-se. O Estado pode ver suas receitas aumentarem temporariamente via royalties, mas essas receitas são voláteis e muitas vezes capturadas por elites locais ou desperdiçadas em gastos correntes, sem constituir um fundo soberano que beneficie gerações futuras ou financie a diversificação produtiva.18
Inflação Estrutural e a Erosão do Poder de Compra do Estado (A Doença de Custos)
Um segundo paradoxo ocorre quando o PIB nominal cresce, e a arrecadação acompanha esse crescimento, mas a população percebe uma piora tangível na qualidade dos serviços públicos (saúde, educação, segurança). Este fenômeno pode ser explicado pela intersecção entre a inflação estrutural de serviços e a rigidez orçamentária, mecanismo conhecido na literatura como a "Doença de Custos de Baumol".
A Dinâmica da Doença de Baumol no Setor Público
A teoria desenvolvida por William Baumol e William Bowen postula uma divisão da economia em dois setores: o setor "progressivo" (indústria, tecnologia), onde a produtividade cresce rapidamente devido à automação e acumulação de capital; e o setor "estagnado" ou "não-progressivo" (serviços pessoais, artes, educação, saúde), onde a produtividade do trabalho é intrinsecamente limitada pela necessidade de interação humana direta.20
A "doença" manifesta-se no mecanismo de equalização salarial. Para atrair e reter trabalhadores, o setor de serviços precisa oferecer salários que acompanhem o crescimento dos salários no setor industrial (que, por sua vez, crescem devido ao aumento da produtividade). Consequentemente, o custo unitário de produção dos serviços cresce sistematicamente acima da inflação média da economia, pois os salários sobem sem um aumento correspondente na quantidade de serviço produzido por hora trabalhada.22
"Em educação, 'o trabalho é em si o produto final'; a presença e interação do professor é fundamental. Não importa o quanto a tecnologia avance, a maioria das tarefas de ensino resiste à automação. A IA não pode conduzir uma reunião de pais e mestres ou inspirar um aluno com a mesma eficácia que um humano." 23
O Descompasso Orçamentário e a Degradação dos Serviços
O Estado é o principal provedor de serviços do setor "não-progressivo". Se o PIB cresce 2% e a inflação geral (IPCA) é de 4%, mas a "inflação médica" ou a "inflação educacional" (custos reais de prover esses serviços) cresce 6% ou 8% devido à dinâmica de Baumol, um orçamento público que é apenas reajustado pela inflação média ou pelo crescimento do PIB sofrerá uma perda real de poder de compra.24
Para manter a mesma qualidade de serviço (mesma relação médico/paciente ou aluno/professor), o gasto público como proporção do PIB precisaria crescer continuamente. Se o governo mantém o gasto estável em relação ao PIB (por exemplo, através de tetos de gastos rígidos que ignoram a inflação setorial diferencial), o resultado inevitável é a degradação:
- Salários de servidores tornam-se não competitivos, levando à fuga de cérebros para o setor privado (ou para o exterior).
- Manutenção de infraestrutura é postergada.
- Fila de espera em hospitais aumenta, não necessariamente por ineficiência administrativa per se, mas pela incapacidade financeira de cobrir os custos crescentes de tecnologias médicas e pessoal especializado.
Assim, é perfeitamente possível haver crescimento macroeconômico e aumento nominal da arrecadação, enquanto as escolas e hospitais entram em colapso funcional. A "eficiência" buscada via cortes de custos (a lógica do "fazer mais com menos") atinge um limite físico intransponível nos serviços de cuidado, resultando em precarização.24
Captura da Renda, Financeirização e o Esvaziamento do Investimento Produtivo
O terceiro eixo de análise foca na alocação da renda gerada pelo crescimento. Em um modelo de desenvolvimento saudável, os lucros corporativos são reinvestidos na ampliação da capacidade produtiva, gerando um ciclo virtuoso de emprego e inovação. No entanto, o fenômeno da financeirização alterou essa lógica, transformando empresas produtivas em agentes financeiros e drenando recursos da economia real.
A Lógica da Maximização do Valor ao Acionista
A partir da década de 1980 nos EUA e 1990 no Brasil, consolidou-se a doutrina da "maximização do valor ao acionista" (shareholder value). Sob esta ótica, a função primordial da empresa não é a perenidade produtiva ou o atendimento ao mercado consumidor, mas a entrega de retornos financeiros de curto prazo aos detentores de capital.25
Isso levou a uma mudança comportamental descrita como a transição do modelo "reter e reinvestir" para "reduzir e distribuir". Conglomerados empresariais passaram a priorizar:
Distribuição Agressiva de Dividendos: Repasse de parcelas crescentes do lucro líquido aos acionistas, em detrimento de reservas para investimento.27
Recompra de Ações (Buybacks): Uso do caixa da empresa para comprar suas próprias ações, inflando artificialmente o preço dos papéis e a remuneração de executivos (baseada em opções de ações), sem criar nenhum valor produtivo real.27
Investimento em Ativos Financeiros: Empresas não-financeiras no Brasil aumentaram significativamente a posse de ativos financeiros líquidos (títulos públicos, derivativos) para obter receitas de juros, muitas vezes mais atrativas e menos arriscadas do que o investimento na produção fabril.28
O Impacto sobre a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF)
A consequência direta da financeirização é a estagnação do investimento produtivo. Estudos empíricos sobre empresas brasileiras de capital aberto entre 2010 e 2016 demonstram uma correlação negativa entre o grau de financeirização (receitas financeiras e pagamentos de dividendos) e a taxa de investimento em capital fixo (máquinas, instalações).27
O capital produtivo "sangra" para a esfera financeira. O PIB pode crescer impulsionado pelo consumo ou pelos serviços financeiros, mas a capacidade instalada da indústria e da infraestrutura não acompanha. Isso cria gargalos de oferta que pressionam a inflação assim que a demanda aquece, abortando ciclos de crescimento sustentável.
Elisão Fiscal e Remessas de Lucros
No Brasil, a estrutura tributária exacerbou esse processo. A isenção de imposto de renda sobre a distribuição de lucros e dividendos (uma anomalia em comparação com a quase totalidade dos países da OCDE) funcionou como um subsídio à extração de renda.31 Multinacionais e grandes conglomerados nacionais foram incentivados a remeter lucros ou distribuí-los a pessoas físicas super-ricas (livres de impostos na ponta final), em vez de reinvestir na operação.
Discussões legislativas recentes tentaram reverter esse quadro, impondo tributação sobre dividendos para alinhar o Brasil às práticas internacionais e incentivar o reinvestimento ("lucro retido"). No entanto, a resistência de grupos de interesse e a ameaça de "fuga de capitais" tornam essa transição politicamente complexa, mantendo o Estado com receitas erodidas e a economia com baixas taxas de investimento.32
Desindustrialização Prematura: O Crescimento que Consome o Futuro
Um dos sintomas mais graves do crescimento desconectado do bem-estar é a desindustrialização prematura, conceito popularizado por Dani Rodrik. Diferente da desindustrialização observada em países ricos (que ocorre após o país atingir alta renda e transitar para serviços sofisticados), a desindustrialização prematura afeta países em desenvolvimento com níveis de renda per capita ainda baixos.33
A Perda do Motor de Convergência
A indústria de transformação possui características únicas que a tornam o "motor" do desenvolvimento:
Convergência Incondicional: A produtividade na indústria tende a convergir para a fronteira tecnológica global mais rapidamente do que em outros setores.33
Inovação e P&D: A maior parte do progresso técnico e da pesquisa e desenvolvimento ocorre no setor manufatureiro ou em serviços diretamente ligados a ele.
Absorção de Mão de Obra: Historicamente, a indústria absorveu trabalhadores de baixa qualificação do campo e os integrou à economia formal, criando uma classe média operária e fortalecendo sindicatos e demandas democráticas.34
Quando um país se desindustrializa precocemente, ele perde esses mecanismos. O crescimento passa a depender de serviços de baixa produtividade (comércio informal, serviços pessoais) ou do setor primário. A economia pode crescer, mas perde complexidade e sofisticação.36
Causas e Consequências no Contexto Brasileiro
No Brasil, a desindustrialização é impulsionada por uma combinação de fatores:
Câmbio Apreciado: A Doença Holandesa e os fluxos de capitais especulativos mantêm o real valorizado, tornando a produção local cara em comparação aos importados asiáticos.17
Ausência de Política Industrial: A falta de coordenação estatal para fomentar setores estratégicos e a infraestrutura deficiente aumentam o "Custo Brasil".
Concorrência Desbalanceada: A abertura comercial sem contrapartidas de competitividade expôs a indústria nascente a competidores globais maduros.
O resultado é que o Brasil cresce "andando de lado" ou para trás em termos de sofisticação produtiva. As empresas deixam de modernizar seus parques industriais ou transformam-se em meras montadoras de componentes importados (maquiladoras), reduzindo o valor agregado local. A participação da indústria no PIB brasileiro caiu de patamares próximos a 30% na década de 1980 para cerca de 10% atualmente, um nível alarmante para um país de renda média.33
Sem uma base industrial, o país torna-se dependente de importações de tecnologia (saúde, defesa, TI), pressionando o balanço de pagamentos e limitando o crescimento a longo prazo pela restrição externa.38
Fuga de Capitais e Insegurança Institucional: O Paradoxo da Desconfiança
O crescimento econômico não é condição suficiente para garantir a retenção de poupança doméstica ou a atração de investimento de qualidade. Em ambientes de insegurança jurídica e instabilidade política, o crescimento pode coexistir com a fuga de capitais, onde investidores buscam realizar lucros rapidamente e enviá-los para jurisdições mais seguras.
Capital Produtivo (FDI) vs. Capital Especulativo (Hot Money)
É crucial distinguir entre o Investimento Estrangeiro Direto (IED/FDI), que se destina à construção de fábricas e infraestrutura e tem horizonte de longo prazo, e o Investimento em Portfólio ou "Hot Money", que busca ganhos financeiros de curto prazo (arbitragem de juros, especulação cambial).39
Economias emergentes que oferecem altas taxas de juros para controlar a inflação ou atrair capitais muitas vezes acabam atraindo desproporcionalmente o hot money. Este capital é extremamente volátil: entra rapidamente inflando bolhas de ativos e apreciando a moeda, mas foge ao menor sinal de risco global ou doméstico, causando crises cambiais súbitas.40
A Insegurança Jurídica como Fator de Repulsão
A "fuga de capitais apesar do crescimento" ocorre quando os agentes econômicos percebem que o crescimento atual não é sustentável ou que os direitos de propriedade e contratos não são garantidos. No Brasil, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e diversos analistas apontam a insegurança jurídica — mudanças constantes nas regras tributárias, decisões judiciais imprevisíveis e burocracia excessiva — como um dos maiores entraves ao investimento.42
Mesmo com o PIB crescendo, se o empresário teme uma expropriação regulatória futura, uma mudança abrupta na alíquota de impostos ou instabilidade política (como visto em crises recentes e escândalos de corrupção), ele optará por não reinvestir o lucro. Em vez disso, realizará estratégias de blindagem patrimonial, enviando recursos para o exterior.44
A corrupção sistêmica também atua como um imposto sobre o investimento e gera instabilidade política, o que afugenta o capital de longo prazo. Escândalos envolvendo grandes estatais e empreiteiras no Brasil demonstraram como a revelação de esquemas ilícitos pode paralisar setores inteiros da economia e induzir a fuga de investidores estrangeiros preocupados com compliance e riscos reputacionais.45
Expansão via Endividamento: A Ilusão do Debt-Led Growth
Um mecanismo comum para gerar crescimento do PIB na ausência de aumentos reais de produtividade ou salários é o estímulo ao endividamento (debt-led growth). Este modelo, embora capaz de gerar booms de consumo de curto prazo, é intrinsecamente insustentável e gera fragilidade financeira sistêmica.
O Modelo de Crescimento Liderado por Dívida
Em contraposição ao crescimento liderado por salários (wage-led), onde o aumento da renda real do trabalho impulsiona a demanda de forma sustentável, o modelo debt-led baseia-se na facilitação do crédito para compensar a estagnação da renda.47 Famílias mantêm seus padrões de consumo endividando-se, e o governo pode estimular a economia através de crédito subsidiado ou expansão fiscal sem contrapartida de investimento produtivo.
Modelos teóricos de "supermultiplicador" mostram que, em regimes de crescimento liderado por demanda autônoma financiada por dívida, a dinâmica tende a levar as famílias (ou o Estado) a acumular passivos a uma taxa superior ao crescimento da sua renda. A longo prazo, isso resulta em insolvência: o serviço da dívida consome uma parcela crescente da renda, forçando uma contração abrupta do consumo (desalavancagem) e levando à recessão.48
O Debate Fiscal Brasileiro e a Crítica aos Juros Altos
No contexto brasileiro, a discussão sobre endividamento público ganha contornos específicos. Economistas como André Lara Resende argumentam que a política monetária de juros excessivamente altos, praticada pelo Banco Central para combater a inflação, é em si mesma uma fonte de desequilíbrio fiscal e inflacionário.50
A lógica é que juros reais muito acima da taxa de crescimento do PIB (o Brasil frequentemente pratica as maiores taxas reais do mundo) tornam a dívida pública impagável não por excesso de gasto primário social, mas por excesso de gasto financeiro com juros. Isso cria um "domínio fiscal" onde o orçamento do Estado é drenado para pagar rentistas, em vez de financiar infraestrutura ou serviços sociais.52
O PIB pode crescer impulsionado por gastos públicos ou consumo privado financiado, mas se esse crescimento é acompanhado por uma taxa de juros que excede a taxa de retorno do investimento produtivo, o resultado é a corrosão da capacidade futura de investimento. O Estado se endivida "errado" (para pagar juros, não para construir pontes) e o setor privado se endivida para consumir, não para produzir. Eventualmente, o peso da dívida sufoca a economia, transformando o crescimento passado em estagnação futura.54
Degradação Institucional: Instituições Extrativas e a Falência Administrativa
O crescimento econômico não ocorre no vácuo; ele é moldado pelas instituições políticas e jurídicas. É possível, como demonstrado por Acemoglu e Robinson, que uma economia cresça sob "instituições extrativas" — aquelas desenhadas para concentrar poder e renda em uma elite restrita —, mas esse crescimento é limitado e instável.56
O Limite do Crescimento Extrativo
Sob instituições extrativas, o crescimento geralmente ocorre através da alocação forçada de recursos em setores de alta rentabilidade imediata (como commodities) ou pelo uso de tecnologias existentes, sem gerar inovação endógena. A elite política/econômica teme a "destruição criativa" (inovação que substitui velhas tecnologias e estruturas de poder), pois ela ameaça sua posição dominante. Portanto, bloqueiam-se as mudanças necessárias para a modernização contínua da economia.58
No Brasil, a persistência de práticas patrimonialistas, o loteamento de cargos públicos e a captura do orçamento por grupos de interesse corporativistas exemplificam a degradação institucional. Mesmo que haja crescimento do PIB, a qualidade do aparato estatal (burocracia weberiana, agências reguladoras independentes, planejamento estratégico) pode estar se deteriorando.
A Incapacidade de Gestão de Políticas Complexas
A degradação administrativa manifesta-se na incapacidade do Estado de gerir políticas públicas complexas necessárias para o século XXI (transição energética, política industrial avançada, reforma urbana). O Estado perde "capacidade estatal":
Piora dos Serviços: Projetos de infraestrutura atrasam ou são superfaturados.
Ineficiência Alocativa: Recursos são gastos em subsídios mal desenhados ou em privilégios para o funcionalismo de alto escalão, em vez de saneamento básico.
Perda de Legitimidade: A população, percebendo que o crescimento não se traduz em melhores serviços, perde a confiança nas instituições democráticas, alimentando ciclos de instabilidade política que realimentam a crise econômica.38
O Enigma da Produtividade: Crescimento Extensivo e Empobrecedor
Por fim, a análise da qualidade do crescimento deve focar na Produtividade Total dos Fatores (PTF). O crescimento do PIB pode ser classificado como "intensivo" (baseado em ganhos de eficiência e tecnologia) ou "extensivo" (baseado meramente na adição de mais insumos: mais terra, mais trabalho bruto).60
Crescimento Extensivo e seus Limites
O crescimento extensivo tem rendimentos decrescentes. Um país pode aumentar seu PIB incorporando novas terras agrícolas ou aproveitando um bônus demográfico (mais jovens entrando no mercado de trabalho). No entanto, se a produtividade de cada trabalhador ou hectare não aumentar, o crescimento cessa assim que os insumos físicos se esgotam.
No Brasil, a produtividade do trabalho está estagnada há décadas. O crescimento recente foi, em grande parte, impulsionado pela incorporação de força de trabalho (redução do desemprego em ciclos de alta, aumento da formalização) e expansão da fronteira agrícola. Contudo, a PTF (a eficiência com que combinamos capital e trabalho) tem contribuição nula ou negativa para o crescimento em muitos períodos.62 Isso significa que o país está "suando mais" para produzir o mesmo resultado, sem ficar "mais inteligente".
O Fenômeno do Crescimento Empobrecedor
Em casos extremos, a expansão da produção voltada para exportação pode levar ao crescimento empobrecedor (Immiserizing Growth), teorizado por Jagdish Bhagwati. Se um país expande a oferta de um bem cujos termos de troca estão caindo rapidamente no mercado internacional, ele pode acabar transferindo mais valor para o exterior do que recebe de volta. O país trabalha mais, exporta mais volume, mas sua renda real nacional cai ou estagna.3
Além disso, se o crescimento ocorre em setores que concentram renda e não geram emprego (como mineração automatizada), enquanto a população cresce, a renda per capita dos estratos mais pobres pode cair mesmo com o PIB subindo. Dados sobre a economia brasileira mostram episódios onde o crescimento não foi "pró-pobre", especialmente em regiões onde a dinâmica econômica foi dominada por enclaves ou onde a inflação de alimentos corroeu os ganhos nominais.65
Conclusão:
A análise dos oito pontos acima revela que o crescimento do PIB, isoladamente, é uma métrica insuficiente e potencialmente enganosa para avaliar o progresso de uma nação. O Brasil e outras economias em desenvolvimento enfrentam o risco real de uma armadilha de estagnação secular disfarçada de ciclos de crescimento voo-de-galinha.67
A combinação de:
- Dependência de commodities voláteis;
- Inflação de custos em serviços públicos essenciais;
- Drenagem de recursos para a esfera financeira e improdutiva;
- Destruição da base industrial;
- Insegurança jurídica que afugenta o investimento de qualidade;
- Endividamento estéril (para consumo ou juros);
- Instituições que extraem em vez de incluir; e
- Estagnação da produtividade;
Cria um cenário de heterogeneidade estrutural exacerbada. O setor moderno, financeirizado e internacionalizado, desconecta-se das necessidades da maioria da população. O Estado, capturado por interesses rentistas e limitado por regras fiscais que ignoram a realidade dos custos de serviços, torna-se incapaz de promover o bem-estar.
Para reverter esse quadro, não basta "retomar o crescimento" a qualquer custo. É necessária uma reorientação estratégica nos moldes de um Novo Desenvolvimentismo 6, que priorize a sofisticação produtiva, a estabilidade de uma taxa de câmbio competitiva, a reforma tributária progressiva (focada em dividendos e patrimônio) e uma política industrial e tecnológica ativa. Somente reconectando o crescimento econômico à transformação estrutural e à inclusão social será possível romper o ciclo de expansão estatística e decadência social.
{As referências e indicações estão no documento original disponível na Sala de Aula desse tema.}